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“Alô, torcida do Flamengo, ‘estou contente em ver a alegria de vocês’, aquele abraço!”

Rafael Willian Clemente (UFFRJ)

 

No texto abaixo, o autor discute sobre os significados evocados pelas comemorações da torcida rubro-negra após a conquista da Copa Libertadores de 2025 pelo Flamengo.


A torcida rubro-negra em vibração. Imagem: Pedro Lopez/Wikimedia Commons¹
A torcida rubro-negra em vibração. Imagem: Pedro Lopez/Wikimedia Commons¹

“Não é meu time, mas é bonito ver o povo feliz!” Dessa maneira, Alessandra Vieira, cruzmaltina, que estava presente na festa rubro-negra no Complexo da Penha, na final da Copa Libertadores da América, no último dia 30, mandou às favas os pudores da rivalidade. Aliás, o sangue [do pertencimento] é mais denso que a água [da representação]. Ao menos nesse caso – que aparece originalmente no texto publicado pelo repórter Luis Adorno do UOL² –, o autorreconhecimento enraizado no âmbito de uma identidade em ser do povo prevalece ante a escala dos símbolos da representação clubística.

 

Porém, cabe dizer, esta é uma interpretação particular do discurso, e pressuponho sinceridade irrestrita dos atores ao lê-los via outro texto narrativo, em um cenário – etnográfico – onde as interações são causas e consequências de uma série de jogos paralelos conjecturais entre atuações e insinuações. Mas, de pronto, deixo as demais questões da etnografia antropológica para os autores teóricos. Aqui, basta tão somente como uma breve explicação. O realmente importante foram as manifestações de uma gigantesca parcela de populares nos bairros, favelas, bares, botequins e campos de pelada do Rio de Janeiro após o apito final em Lima, no Peru. Com destaque para o dia seguinte, em que a claque rubro-negra banhou as ruas do centro da cidade em vermelho e preto.

 

A Nação, ou uma considerável parte dela – uma massa de flamenguistas – alijada da emoção nos estádios, principalmente no Maracanã pós-Copa de 2014 e seus preços proibitivos, como também da política institucional de planos sócio-torcedor, se fez presente de maneira quase opressora na comemoração junto aos tetracampeões. Quem assistiu à cobertura da mídia esportiva ou aos vídeos de variados perfis nas redes sociais, pode acompanhar e rememorar um “velho” Rio de Janeiro. Ou melhor, as mais genuínas manifestações populares de uma cidade pré-megaeventos. Parecia que os anos 1990 haviam se fundido aos anos 2000 diante dos olhos espectadores. As ruas pulsavam com torcedores e torcedoras ao velho estilo galeras funk, e estas determinavam, ao som de um baile, o ritmo da comemoração e também do funcionamento da cidade. O centro do Rio parou e outras intermediações passaram em pausa boa parte do domingo. Cada espaço parecia se fazer um pedaço da antiga Geral e também das velhas arquibancadas de concreto do Maracanã.

 

A contradição é óbvia, mas não parece sê-lo para a cartolagem, satisfeita com os números e cifras apresentadas ao mundo do futebol e do dinheiro, principalmente em se tratando de vendas de ingressos. O rubro-negro da Gávea é o recordista de público dos últimos campeonatos. Um estádio reduzido e preços altos para a realidade comum, mas uma torcida que permeia as diversas classes sociais resulta nos montantes capazes de satisfazer as diversas administrações institucionais do Clube de Regatas do Flamengo. Uma equação interessante para a economia do futebol, não tanto para uma considerável parcela de apaixonados pelo esporte e pelas cores do clube. Aos menos abastados restam a satisfação pelas frestas, nas fímbrias, o nosso moderno incompleto. Ou, como mencionava o saudoso sociólogo Chico de Oliveira, “a exceção do subdesenvolvimento"³, excludente ao todo por oferecer o melhor aos poucos, e lucrar com isso. O melhor seria a inclusão dessa massa de torcedores nos espaços “modernos” da emoção, não sua segregação via economia.

 

Mas eis que é das fímbrias da cidade e à margem do espetáculo financeiro e financista que surgem as mais sinceras e efusivas manifestações dos diversos Rios de Janeiro, capazes de se ajuntar em cada esquina e torná-las vivas numa relação dialética entre os indivíduos que fazem o ethos das ruas e as perpendiculares vias de concreto a moldar os pathos dos sujeitos. E o torcer, a paixão por um clube, é uma dessas patologias.

 

A folia, como forma de loucura e libertação dos nossos atores internos, ganhou as ruas do Rio em forma de almas e corpos brutos semilivres, pois lá ainda estavam a dominação em forma de força, bélica e física, para vigiar qualquer desvio não negociado. Enfim, com promessas de encontros futuros, a festa suplantou a feiura do poder. As emoções e suas variadas formas de afeto e afetação tornaram a cidade maravilhosamente rubro-negra e, como dizia o samba, “olha, eu estou contente em ver a alegria de vocês”e pouco importa se não é meu time, o bonito mesmo foi ver o povo feliz!

 

Em 2023, o Estatuto do Torcedor (Lei 10.671/2003) foi revogado e absorvido pela Lei Geral do Esporte (Lei 14.597/2023). Desde então, os direitos das pessoas torcedoras passaram a ser determinados por essa legislação. Acesse o texto da lei para saber mais sobre os seus direitos.

 

Sobre o autor:

 

Rafael Willian Clemente é doutor em Ciências Sociais pela UFRRJ, onde pesquisou as relações de torcedores nos espaços do Maracanã entre sociabilidades, emoções e conflitos. É professor do Ensino Público.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Nem sempre a relação das torcidas com os times se dá em tempos de glória. Para saber mais sobre esses outros momentos, leia o nosso texto No coração esquecido do futebol


¹ CC BY 2.0. Taça Guanabara de 2008 (Final - Flamengo 2-1 Botafogo).

² ADORNO, Luis. Um mês após chorar 122 mortes, Penha tem lágrimas de alegria pelo Flamengo. UOL, Rio de Janeiro, 30 de nov. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/11/30/um-mes-apos-chorar-122-mortes-penha-tem-lagrimas-de-alegria-pelo-flamengo. Acesso em: 30 nov. 2025.

³ OLIVEIRA, Francisco de. O ornitorrinco: crítica à razão dualista. São Paulo: Boitempo, 2003. 

O samba é a nossa cara (Luizinho SP). Arlindo Cruz e Sombrinha. Samba é a nossa cara. 1997.




 
 
 

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