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A camisa embarrada do Inter – e o uso de símbolos no futebol atual

Atualizado: 3 de jun.

Carmen Rial


O Sport Club Internacional foi a campo[1] no dia 28 de maio para enfrentar o clube argentino Belgrano vestindo um uniforme com manchas amarelas que pareciam o barro. Em outro contexto, o barro nas camisetas e nos calções seria visto como sujeira, algo que deveria ser retirado. De fato, é comum que os jogadores troquem de uniforme no intervalo quando o sujam de barro durante o primeiro tempo do jogo. Nunca antes tinha se visto uma equipe entrar em campo já suja de barro, como aconteceu no dia 28 de maio de 2024.


A sujeira, como a antropóloga britânica Mary Douglas (1976) nos explicou, até pode ter a ver com falta de higiene, mas é antes de tudo um estar fora do lugar. Por mais limpo que esteja o cabelo após o xampu e o condicionador, um fio dele no prato de comida será visto como sujeira: uma aberração, algo que deve ser imediatamente excluído. O argumento central de Douglas é que a sujeira não é só uma questão de higiene ou limpeza, mas de ordem cultural. A sujeira seria assim uma matéria fora do lugar (“a matter out of place”). Algo está sujo quando está fora da classificação cultural adequada. Como as camisetas do Inter embarradas no início do jogo, pelo menos no contexto futebolístico, pois, embora o trabalho de Douglas enfatize que a sujeira não é universal, e sim culturalmente relativa, o futebol tem um vocabulário quase universal.


De fato, no mundo do futebol – nos mais de 200 países onde se pratica o futebol – o barro das camisetas é visto como sujeira e por isso mesmo incomoda. É por isso que precisa ser excluído, eliminado, purificado. Como toda a sujeira, ameaça a estrutura e a cosmovisão social. Limpar é uma operação que ordena de acordo com um determinado código cultural, no caso, o código futebolístico.


A intenção do Inter era claramente a de provocar o incômodo que a sujeira nos causa. O barro foi usado como signo na mensagem de que aquele não era um dia qualquer e aqueles futebolistas não estavam representando torcedores que viviam dias quaisquer, dentro de uma ordem social qualquer. Eles estavam no campo de futebol, mas vinham de um lugar momentaneamente em desordem, onde a água tinha tomado o lugar da terra, se misturado com ela, virando barro, tornando o lugar sujo.


A água é limpa quando se mantém no rio ou no lago, mas quando ultrapassa 3 metros de altura e, pela imprevisão, incompetência e ganância dos governantes, não encontra barreiras, ela invade a cidade de Porto Alegre e a suja. Está fora do lugar e obrigou mais de 600 mil pessoas a também ficarem fora do seu lugar, de suas casas, em abrigos improvisados, pois nem abrigos tinham sido previstos para uma situação que já não era nova, já que duas outras invasões de água haviam ocorrido recentemente no estado. As ruas viraram rios ou pântanos, havia garças brancas passeando no Praia de Belas, e peixes nadavam em frente ao Centro Cultural Mário Quintana. Cento e sessenta e nove pessoas tinham morrido. E a faixa preta usada comumente nas camisetas como símbolo de luto não era suficientemente forte para expressar a tragédia vivida pelo lugar de onde vinham aqueles futebolistas. Alguns entre eles tinham entrado na água e carregado nos braços pessoas, outros tinham servido comida para os desabrigados. Viram o barro de perto. E o vestiram, certamente, com orgulho de estarem falando do caos aos que assistiam o jogo na Arena Barueri, a mil quilômetros do seu inundado estádio Beira-Rio, sua casa esportiva – eles também, desse modo, eram desabrigados. Por isso, falaram com eloquência por meio de um símbolo bem mais forte: a sujeira. Quem poderia pensar que o barro pudesse remeter à tragédia do Rio Grande do Sul? De fato, se fossemos usar a semiótica, o barro nas camisetas no Inter é índice (Peirce 2005)[2], pois mantém com o que representa uma relação quase direta. A sujeira das camisetas do Inter como que traz o barro de lá para cá, do Rio Grande do Sul para São Paulo, de Porto Alegre para Barueri.


O futebol (e o esporte em geral) tem sido palco de muitos signos e criado símbolos. É prolixo nisso. Não falo das mensagens de parabéns a parentes e amigos que futebolistas homens e mulheres escrevem nas camisetas sob o uniforme e mostram na hora do gol, do balançar de braços embalando bebê de Bebeto na Copa de 1994, da bola sob a camiseta para saudar nascimentos próximos, do dedo em forma de bigode que alude a pais, aos coraçõezinhos com as mãos para amadas e amados, ao L (não o de Lula, mas a do nome do filho e da filha do atacante Germán Cano, do Fluminense) ou dos dizeres de I love Jesus nas bandanas ao final de campeonatos vencidos. Mas poderia, já que esses também são signos e passam mensagens, pessoais ou religiosas, às vezes até políticas.


Historicamente, penso no braço erguido e no punho cerrado de Tommie Smith e John Carlos no pódio, remetendo à luta dos Panteras Negras, que lhes valeram a perda das medalhas olímpicas em 1968. E penso na papoula vermelha que honra os mortos na Primeira e Segunda Guerra Mundial, pregada nos uniformes das equipes britânicas em novembro[3]. Mais recentemente, no ajoelhar de Colin Kaepernick no futebol americano como gesto antirracista e de apoio ao movimento Black Life Matters – o que lhe custou o emprego –, que foi transportado para o futebol, especialmente no Reino Unido. Ou no gesto de flechar com o qual Paulinho do Atlético Mineiro homenageia o seu orixá, Oxóssi, e as religiões afro-brasileiras, alvo de tantos ataques atualmente.


Penso também, e especialmente, no gesto comovente dos futebolistas do clube chileno Palestino que entraram no campo igualmente no dia 28 de maio de 2024 levando pela mão “crianças invisíveis” para denunciar o massacre de meninos e meninas em curso na faixa de Gaza. Uma vez no meio de campo, na tradicional fila, eles deixaram cair no gramado à sua frente suas jaquetas pretas, como se estivessem querendo proteger do frio as crianças invisíveis[4].


Os símbolos, como as noções de sujeira, limpeza, poluição e pureza, podem evoluir e mudar com o tempo, à medida que as convenções e os entendimentos culturais mudam. A flexibilidade dos símbolos permite que eles se adaptem a novos contextos e significados. E os seus significados dependem de que se entenda a convenção, ou seja, dependem de quem lê leitor/a, diria Umberto Eco (1988) –, de quem recebe receptor/a, diriam as teorias de comunicação –, de quem interpreta interpretante, diria Peirce (2005). Já os índices são mais diretamente compreendidos devido à sua conexão factual com o objeto, sua quase contiguidade: as pegadas, a fumaça, o barro num uniforme. Seja como símbolo (manchas de tinta que evocam o barro) ou índice (terra molhada), o Inter teve êxito na força da sua mensagem. O futebol – clubes, futebolistas e organismos dirigentes – tem entendido que pode enviar mensagens. E atingir grandes audiências com elas.

 


Referências:

Douglas, Mary. 1976. Pureza e Perigo. Uma análise dos conceitos de poluição e Tabu. São Paulo: Perspectiva.

Eco, Umberto. Lector in fabula. São Paulo: Perspectiva, 1988.

Oliven, Ruben. 1992. A parte e o Todo A Diversidade Cultural no Brasil-Nação. Petrópolis: Editora Vozes.

Peirce, Charles Sanders. 2005. "Semiótica". São Paulo: Editora Perspectiva.


 

[1] “Ir à campo” é um modo comum entre os gaúchos de se referir a entrar no gramado, ir para o jogo, e tantas outras expressões que designam a entrada dos futebolistas no palco de jogo. “Ir a campo” de algum modo se relaciona com o trabalho dos gaúchos boiadeiros, que também iam ao campo – não para plantas soja, como agora, mas para cuidar do gado. Sobre os significados dessa memória “do campo”, veja Oliven (1992)

[2] Na sua teoria semiótica, Charles Peirce (2005) distingue entre três tipos de signos: ícones, índices e símbolos. Cada um desses signos se relaciona com seu objeto de maneira diferente. O índice é um signo que tem uma conexão física ou causal direta com seu objeto. A relação entre o índice e o objeto é de contiguidade ou de causa e efeito. Por exemplo, a fumaça como um índice de fogo ou as pegadas como um índice da presença de uma pessoa ou animal. Os índices tendem a ser imediatos e diretos na sua relação com o objeto, já que dependem de uma conexão real e observável. Já o símbolo é um signo cuja relação com seu objeto é estabelecida por uma convenção ou regra. Não há uma conexão física ou direta entre o símbolo e seu objeto; a relação é arbitrária e baseada em um acordo cultural ou social. Exemplo de símbolo são as palavras, os números, os sinais de trânsito, as bandeiras dos países ou dos clubes de futebol. Ou a pomba, símbolo da paz desde que Picasso a pintou a pedido do Partido Comunista.

[3] O uso da papoula como símbolo de lembrança foi inspirado pelo poema In Flanders Fields, escrito pelo tenente-coronel John McCrae, que descreve como as papoulas vermelhas cresceram nos campos de batalha da Flandres, na Bélgica, após a devastação da guerra. Desde então, a Royal British Legion promove o uso da papoula vermelha em novembro, especialmente no Dia da Memória (Remembrance Day), para homenagear os militares caídos.



 

SOBRE A AUTORA:

Carmen Rial (UFSC) Coordenadora do INCT Futebol.


COMO CITAR:

RIAL, Carmen. A camisa embarrada do Inter – e o uso de símbolos no futebol atual.

Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.9, 2024.


DOI 10.13140/RG.2.2.32462.88643



 

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